Em agosto, comemoramos o Dia Internacional dos Povos Indígenas, data instituída em 1995 pela Organização das Nações Unidas (ONU), com o propósito de reconhecer a diversidade dos povos indígenas ao redor do mundo e resguardar seus direitos, culturas e identidades. Com uma população de mais de 370 milhões de pessoas distribuídas em cerca de 70 países, os povos indígenas representam uma imensa diversidade cultural e riqueza histórica.
No entanto, esses povos enfrentam inúmeros desafios diante do avanço do crescimento urbano e do desenvolvimento, cujos processos históricos de ocupação, em muitos casos, foram marcados por violência, expulsão de seus territórios e negação de suas histórias, línguas, costumes e crenças.
A WSP Brasil atua diretamente com comunidades indígenas em todo o país, com o objetivo de mitigar e compensar impactos dos diversos empreendimentos que são construídos no entono das Terras Indígenas. Como princípio fundamental, nossos projetos são desenvolvidos de forma participativa, valorizando o processo de escuta e incorporando a cosmovisão dos povos indígenas na construção conjunta de soluções.
Nossa principal ferramenta reside na compreensão das especificidades de cada povo durante o processo de consulta sobre os impactos dos empreendimentos, garantindo que os projetos de mitigação e compensação respeitem e valorizem suas visões, regras e tradições, que são muito diversas.
A história da WSP Brasil com as comunidades indígenas
Um dos primeiros trabalhos realizados por nossa equipe com povos indígenas partiu da elaboração de um Estudo do Componente Indígena, parte integrante do Estudo de Impacto Ambiental de uma grande Linha de Transmissão que atravessa o país de norte a sul.
Essa Linha de Transmissão não passa dentro dos limites de Terras Indígenas, mas está em suas proximidades, e muitas áreas de importância para aqueles povos ficaram de fora das demarcações de seus territórios, como nascentes, cemitérios, áreas sagradas, regiões importantes de caça, de coleta, etc.
Por isso, o Estudo garantiu especial atenção à memória oral, histórica e cultural, das etnias que estavam sob a influência deste empreendimento. Nas regiões dos traçados das Linhas de Transmissão, foram identificadas áreas de alta relevância simbólica; muitas delas, marcos históricos ou locais habitados por espíritos ancestrais e diversos seres da natureza, que compõem os diferentes universos cosmológicos de cada povo.
Lições de vida
Acompanhar estas comunidades indígenas, compreender melhor seus relatos e a importância daqueles territórios foi um grande aprendizado para nossa equipe. Juntos, percorremos trilhas nas matas e navegamos por rios, dentro e no entorno das Terras Indígenas, aprendendo e vivenciando o que nos era contado. Para eles também foi um momento significativo: alguns jovens escutaram os relatos dos mais velhos sobre os territórios de ocupação tradicional, que ficaram fora dos limites das Terras Indígenas, pela primeira vez.
A partir dessas trocas, nossa equipe passou a compreender com mais profundidade a importância cultural dos territórios por onde passaria a Linha de Transmissão. Esse entendimento foi essencial para a formulação de um Programa de Valorização Cultural, voltado para o registro de suas histórias e para o fortalecimento de seus modos de vida.
Através de uma construção coletiva com as comunidades indígenas, tanto em campo quanto com os importantes parceiros técnicos da Funai, modelamos a concepção de um trabalho dentro deste programa: a criação de uma coleção de textos, vídeos e cantos, chamada Senhores dos cantos... das terras.
A música como ponto de partida
Iniciamos o projeto reconhecendo que a música é elemento central do modo de vida dos povos indígenas. Este trabalho envolveu os povos Nambiquara, Bororo, Umutina, Kwazá e Aikanã. A metodologia utilizada para o projeto buscou estar em sintonia com sua forma de criar e fazer música.
Nas culturas indígenas, o ato de cantar ou tocar um instrumento geralmente se apresenta como uma vivência coletiva e multifacetada. É preciso realizar a coleta de recursos naturais para a produção de instrumentos musicais; a elaboração de pinturas corporais; a confecção de adornos; caçadas; pescarias; o preparo de comidas e bebidas.
Tradicionalmente, as culturas indígenas são baseadas na transmissão oral e na linguagem simbólica das imagens. Durante a realização das gravações das músicas nas aldeias, foram desenvolvidas oficinas com as comunidades para a criação de textos, que estão nos livros da coleção. Além disso, também foram criados desenhos, de forma livre, que ilustram esses textos.
Histórias para o futuro
Essa rica experiência foi muito elogiada pelos povos indígenas que participaram. Se tornou um importante registro de suas riquezas culturais. O trabalho também resultou em um material que pode ser utilizado na educação escolar indígena e nas escolas não-indígenas, promovendo um aprendizado centrado nos saberes dos povos originários do Brasil.
Esse percurso, construído com base no diálogo e na escuta ativa, permitiu desenvolver um processo sensível às especificidades culturais dos povos indígenas envolvidos. Os resultados refletem esse cuidado, valorizando a diversidade cultural, fortalecendo capacidades locais e contribuindo para um desenvolvimento sustentável, alinhado às realidades dos territórios.